Fotografia e Antropologia visual
Desde a década de 80 vem ocorrendo uma enorme expansão da linguagem fotográfica em diversas áreas, seja no mercado editorial, seja em nosso dia-a-dia através da forte presença da imagem enquanto comunicação de massa neste final de século, e também se reflete de maneira intensa nos trabalhos realizados pelas ciências humanas, com um número cada vez maior de antropólogos, sociólogos, historiadores e outros, que se utilizam de iconografias, fotografias, filmes e vídeos, como tema, fonte documental, instrumento, produto de pesquisa e ainda como veículo de intervenção político-cultural.
Pois assim como a escrita, que fixa e repassa informações, a imagem fotográfica também perpetua acontecimentos de um dado tempo e momento, com a diferença que ao contrário da escrita, não é necessário ser iniciado-alfabetizado para construir e dar sentido a uma imagem, seu caráter polissêmico permite diversas e infinitas leituras. Por isso não é de se estranhar que a reação de povos ágrafos frente ao registro fotográfico seja semelhante às reações frente à escrita causando temor, curiosidade e fascinação de forma mais intensa, pois em relação a imagem, entende-se a primeira vista e percebe-se sua fidelidade rigorosamente visível.
Os Yanomami, assim como outros povos de tradição fortemente oral, não admitem rememorar as lembranças de um ente perdido, seja através de palavras, seja através de fotografias. Esse tipo de recordação toma-se uma agressão violentíssima e perigosa, tanto para os vivos quanto para os mortos.
Os Guarani nomearam a fotografia de forma distinta, batizando a palavra escrita Como KUATIA – que significa o desenho e a pintura corporal com uma espécie de aura, na qual a imagem mais que q escrita possui um contorno feiticeiro.
Essas reações perante a imagem demonstram todo o manancial de significados que elas carregam para um possível leitor. Mais do que mágica ou misticismo, a imagem é permeada de sentidos que falam à vivência do espectador, reelaborando e permitindo o afloramento de fragmentos de experiências.
Por ser uma linguagem específica, a imagem torna-se mais flexível de compreensão do que o texto, por suportar, em sua estrutura, vários significados. A imagem, neste contexto, pode ser lida exatamente como uma narrativa linear textual.
“De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de fazê-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória”. Henri Cartier-Bresson
Rodrigo Pires – 2001

